Eu tive muito medo de machucar você. E machuquei. Tive muito medo de magoar os outros. E magoei. Tive medo que me julgassem, e julgaram... Julgaram mal. E eu chorei... E agora vejo essas mesmas pessoas apontando o dedo pra outras. Penso então, será que são assim tão críticas consigo mesmas? Acho difícil confiar em quem julga, quem busca defeito, quem busca raiva... aprendi bem pequena algo muito importante. Enquanto, entre lágrimas, falava para minha professora da escolinha coisas más que uma coleguinha havia dito, ela me olhou ternamente e disse: Jade, quando José fala de Pedro, descubro muito mais sobre José do que sobre Pedro. E me abraçou. Eu nunca esqueci disso, e quanto mais eu crescia, mais via que isso era verdade. Eu acho que estou vivendo um paradoxo. Estou intolerante com a intolerância. Porque não reconhecer a beleza de cada um e viver nossa própria verdade, deixando que os outros façam o mesmo? Porque encher a boca para espalhar defeitos alheios? Acaso isso tornará os nossos mais escassos? O silêncio é tão belo, meu bem. O amor é tão grande. A verdade, tão complexa. Deus, tão fiel. Ele nos fez assim, diferentes. Confia, então, na perfeição Dele.
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quinta-feira, 18 de julho de 2013
sábado, 22 de junho de 2013
O que quer o Brasil?
Dilma, nós não queremos apenas a diminuição das tarifas. Nem muito menos um pronunciamento oficial. De bla bla bla, já estamos cheios. Queremos ação. Saúde e educação nos padrões FIFA. Não queremos médicos estrangeiros para ampliar atendimentos do SUS. Queremos condições de trabalho para os profissionais de saúde, melhoria das universidades de medicina públicas e privadas, plano de carreira e estabilidade. Queremos saber onde vai parar o dinheiro público em um país que tem a maior carga tributária do mundo, mas ainda assim os serviços de saúde são precários, não por falta de médicos, mas por falta de investimento e infra estrutura. A educação de qualidade é privilégio para uma minoria que tem condição de desembolsar uma fortuna. O transporte público é caro e não atende à demanda da população, mas aos interesses dos proprietários das empresas de ônibus. Nosso dinheiro já serviu de maquiagem por tempo demais. Já foi desviado pelos corruptos por tempo demais. Queremos um basta, dizemos não à PEC-37 e à ditadura do congresso! Queremos que os 720 bilhões de reais que foram arrecadados em impostos APENAS NO ANO DE 2013 sejam utilizados em favor da maioria, e não de uma minoria. Queremos que você escute as vozes das ruas, sim, presidenta. Mas que escute com atenção, nos oferecendo nada mais nada menos do que o que nos é de direito.
terça-feira, 23 de abril de 2013
Sobre o dia mundial do livro e as delícias que este nos traz
Um livro pode ser um grande aliado, dependendo das mãos onde estiverem. Nas minhas, sempre foi como um passaporte. Viajar em todas aquelas letras, páginas com marquinhas do tempo e o cheirinho (de novo ou de velho) é como um escape. Independente do estilo, afinal gostoso mesmo é ler o que a gente quiser, sem ter que dar satisfação pra ninguém. É um alimento pra alma, e isso é algo pessoal, só nosso.
Hoje, o dia do livro é comemorado no mundo inteiro, uma homenagem à dois grandes autores, William Shakespeare e Miguel de Cervantes. Sei que pode parecer clichê falar sobre toda a magia da leitura no dia do livro, mas alguns clichês são cheios de sabedoria, e aí vai um deles:
Um país se faz com homens e livros.
E um homem se faz com livros, amor e exemplo. A literatura representa um delicioso degrau em direção ao conhecimento. E também para perpetuação deste. Acho que a melhor parte é saber que, depois de mim, várias outras pessoas poderão ter acesso àquele conteúdo, afinal, ele está ali. Impresso. Irredutível. Pronto para ser lido, esperando alguém que o use como o aliado que ele pode ser.
sexta-feira, 5 de abril de 2013
Algumas verdades que o dinheiro mostra
Sabe aquela velha história do pobre que fica rico e não sabe como lidar com isso? Não volta mais às origens, esquece quem é, de onde veio e de todas as pessoas que o ajudaram a chegar onde está. Passa por cima de um e de outro, mas nem se dá conta disso. O dinheiro já ocupa demais sua visão. Alguns acabam sozinhos com suas fortunas, outros perdem tudo por não saber administrá-la. Enfim, de uma forma ou de outra a vida ensina que o vazio dentro da gente não tem valor nenhum que preencha. Pena que uns demoram demoram tempo demais para aprender.
A maioria de nós costuma usar uma série de proteções e molduras para nos mostrar. Não deixamos que os outros nos vejam por completo, se aprofundem muito, se permitam mergulhar nas nossas profundezas... E se tem uma coisa que o dinheiro faz melhor do que comprar é destruir todos esses escudos. E isso não tem só o lado mal, não. Já conheci algumas pessoas muito boas com dinheiro na mão. Elas mostram que seu valor excede muito à sua conta bancária, pois sabem que se um dia ela se esvaziar, ainda poderão se encher com verdade, amor e certeza de que conhecem o que realmente importa. São pessoas interessantes, daquelas que invadem a alma da gente, seja com um papo legal ou um olhar verdadeiro. Que falam de música, literatura, de fé, de sentimento, ou de coisa qualquer que as interesse, pois não estão interessadas apenas em enriquecer. Pessoas com coração cheio, que, mesmo que estejam de bolsos vazios, encantam por ser exatamente quem são.
Quem muito se preocupa em encher a conta no banco, acaba ficando com a alma vazia. As pessoas com alma cheia não precisam se esconder atrás de rótulos, máscaras, lentes ou fortunas. Simplesmente sabem sob que perspectiva enxergar o mundo. Sabem que precisam de gente, não de objetos. Sabem que são mais que números, são carne e osso. Não têm sede de poder, mas de verdade. Sabem quem é de mentira. Sabem que a vida não tem preço. São raras, sim senhor, mas existem. Estão misturadas em todas as classes sociais. Contam o dinheiro no final do mês e, independente de serem milhões ou apenas um salário mínimo, sabem que o que carregam na carteira é só mais um atalho para dias melhores. O resto da viagem é por conta do que carregam dentro de si.
sexta-feira, 15 de março de 2013
O novo papa, a simplicidade e o poder
Algumas semanas atrás, quando o antigo papa renunciou, fez-se o furdúncio. Todo mundo queria dar sua opinião, embora muitos não fizessem ideia do que estavam falando. Muitas conspirações, discursos e teorias depois, os problemas da Igreja começaram a ficar cada vez mais claros e escancarados. Como se já não estivessem dando as caras há muito tempo.
As pessoas tem mania de uma cegueira seletiva sem limite. A corrupção, a pedofilia, a ostentação... tudo isso já estava vivo dentro da Igreja desde que esta existe. Apenas muda de cara através das gerações. Não vai ser a renúncia de um Papa - creio eu mais abatido pela verdade diante dos seus olhos do que pelas suas enfermidades- que vai mudar isso. Nem a eleição de outro. Enquanto a fachada for mais importante que a obra, tudo permanecerá da mesma forma. Enquanto de um lado do muro a igreja goza de luxos desnecessários, do outro lado pessoas passam fome. Fiéis em potencial, clamando para serem resgatados. Pena que o sino do templo soa mais alto do que os seus gritos de socorro.
Quando falo em igreja, note, não estou usando letra maiúscula. Não me refiro propriamente à instituição. A verdadeira igreja somos nós. Até quando iremos fechar os olhos? Até quando religião vai ser motivo de briga? Até quando iremos medir poder dentro dos ministérios? O real sentido deles é alcançar todos! O problema é que a simplicidade se perdeu. Sim, ela mesma, aquela que Jesus não só ensinou, mas aplicou em todos os dias de sua vida na Terra. Exagero? Não. Tanto é que o Papa Francisco chama a atenção justamente por apresentar toques desse valor tão raro, não apenas dentre o Clero, mas em toda sociedade cristã.
Não, Jorge Mário Bergoglio não impressiona apenas por ser argentino, o primeiro papa não-europeu depois de 1200 anos. Conhecido por sua dedicação aos pobres do país, ele abdicou de um palácio por um pequeno apartamento, andava de transporte público em vez de um carro com chofer e cozinhava suas próprias refeições. São sopros de simplicidade que deveriam estar presentes em qualquer um que almeje fazer parte do Reino.
Eu sei, estou gritando no escuro. É uma voz muda. Mas alguém tem que lutar por alguma coisa além do poder, pois este já está nos consumindo demais. O itinerário do florescer humano vai muito além de pompa, aplausos, riqueza. É uma questão de face a face. De dar as mãos. Sentir o outro. É disso que as igrejas precisam: de gente! Padres, pastores, bispos, papas, líderes... e, acima de tudo, de fiéis. De crentes. De gente que se importa com o mundo além dos portões do templo. Enquanto isso não se espalhar, enquanto os muros construídos não forem derrubados, sinto dizer: a Igreja continuará afundando. E nós, igreja, iremos junto. Chega de rivalidade com o próximo. Sejamos simples - e o mundo mais simples se tornará.
Eu sei, estou gritando no escuro. É uma voz muda. Mas alguém tem que lutar por alguma coisa além do poder, pois este já está nos consumindo demais. O itinerário do florescer humano vai muito além de pompa, aplausos, riqueza. É uma questão de face a face. De dar as mãos. Sentir o outro. É disso que as igrejas precisam: de gente! Padres, pastores, bispos, papas, líderes... e, acima de tudo, de fiéis. De crentes. De gente que se importa com o mundo além dos portões do templo. Enquanto isso não se espalhar, enquanto os muros construídos não forem derrubados, sinto dizer: a Igreja continuará afundando. E nós, igreja, iremos junto. Chega de rivalidade com o próximo. Sejamos simples - e o mundo mais simples se tornará.
sexta-feira, 8 de março de 2013
Sobre o dia internacional da mulher
No ano de 1857, nesse mesmo dia, 136 mulheres foram queimadas vivas dentro de uma fábrica após reinvidarem a diminuição da sua jornada de trabalho. Hoje, comemoramos o dia internacional da mulher como uma homenagem a essas que perderam a vida por exigir seus direitos. É inegável que várias conquistas foram concretizadas para que nós mulheres ganhássemos lugar nos mais diversos setores da sociedade, mas ainda hoje muitas são violentadas verbal, física e sexualmente todos os dias. São agredidas e mortas dentro de suas casas, pelos próprios maridos. São aprisionadas por culturas extremistas, radicalismo religioso e machismo. Vivem com medo. São abusadas quando crianças e estupradas quando adolescentes. São vítimas de um mundo que insiste em chama-las de sexo frágil, sem conhecer a força que têm. São mães, filhas, esposas, amigas, trabalhadoras, donas de casa. São vida. São mulheres.
terça-feira, 18 de dezembro de 2012
Anjos perdidos
Enquanto observo oque me cerca, as pessoas que me rodeiam, multidões andando nas ruas e avenidas engarrafadas, vejo solidão. Pessoas que passam despercebidas. Rostos que negam sorrisos. Corações endurecendo e esquecendo de amar. Vejo, por outro lado, uma luz que mantém tudo. Que nos mantém humanos, que nos lembra de amar, cativar e ser cativado. Pois, quando cativamos alguém, nos tornamos essenciais. E uma qualidade de ser essencial é não ser mais invisível. Não ser apenas mais um. Ser como um anjo que lembra que cada um perdido em meio à multidão tem o dom de ser único, especial. E então, quando olho pela janela as montanhas ao longe, as luzes da cidade, o tempo sobre os telhados, penso: talvez cada um de nós, seres humanos, seja o anjo de alguém.
quarta-feira, 10 de novembro de 2010
Calem a boca, nordestinos!
"A eleição de Dilma Rousseff trouxe à tona, entre muitas outras coisas, o que há de pior no Brasil em relação aos preconceitos. Sejam eles religiosos, partidários, regionais, foram lançados à luz de maneira violenta, sádica e contraditória.
Já escrevi sobre os preconceitos religiosos em outros textos e a cada dia me envergonho mais do povo que se diz evangélico (do qual faço parte) e dos pilantras profissionais de púlpito, como Silas Malafaia, Renê Terra Nova e outros, que se venderam de forma absurda aos seus candidatos. E que fique bem claro: NÃO os cito por terem apoiado o Serra… outros pastores se venderam vergonhosamente para apoiarem a candidata petista. A luta pelo poder ainda é a maior no meio do baixo-evangelicismo brasileiro.
Mas o que me motivou a escrever este texto foi a celeuma causada na internet, que extrapolou a rede mundial de computadores, pelas declarações da paulista, estudante de Direito, Mayara Petruso, alavancada por uma declaração no twitter: “Nordestino não é gente. Faça um favor a SP, mate um nordestino afogado!”.
Infelizmente, Mayara não foi a única. Vários outros “brasileiros” também passaram a agredir os nordestinos, revoltados com o resultado final das eleições, que elegeu a primeira mulher presidentE ou presidentA (sim, fui corrigido por muitos e convencido pelos “amigos” Houaiss e Aurélio) do nosso país.
E fiquei a pensar nas verdades ditas por estes jovens, tão emocionados em suas declarações contra os nordestinos. Eles têm razão!
Os nordestinos devem ficar quietos! Cale a boca, povo do Nordeste!
Que coisas boas vocês têm pra oferecer ao resto do país?
Ou vocês pensam que são os bons só porque deram à literatura brasileira nomes como o do alagoano Graciliano Ramos, dos paraibanos José Lins do Rego e Ariano Suassuna, dos pernambucanos João Cabral de Melo Neto e Manuel Bandeira, ou então dos cearenses José de Alencar e a maravilhosa Rachel de Queiroz?
Só porque o Maranhão nos deu Gonçalves Dias, Aluisio Azevedo, Arthur Azevedo, Ferreira Gullar, José Louzeiro e Josué Montello, e o Ceará nos presenteou com José de Alencar e Patativa do Assaré e a Bahia em seus encantos nos deu como herança Jorge Amado, vocês pensam que podem tudo?
Isso sem falar no humor brasileiro, de quem sugamos de vocês os talentos do genial Chico Anysio, do eterno trapalhão Renato Aragão, de Tom Cavalcante e até mesmo do palhaço Tiririca, que foi eleito o deputado federal mais votado pelos… pasmem… PAULISTAS!!!
E já que está na moda o cinema brasileiro, ainda poderia falar de atores como os cearenses José Wilker, Luiza Tomé, Milton Moraes e Emiliano Queiróz, o inesquecível Dirceu Borboleta, ou ainda do paraibano José Dumont ou de Marco Nanini, pernambucano.
Ah! E ainda os baianos Lázaro Ramos e Wagner Moura, que será eternizado pelo “carioca” Capitão Nascimento, de Tropa de Elite, 1 e 2.
Música? Não, vocês nordestinos não poderiam ter coisa boa a nos oferecer, povo analfabeto e sem cultura…
Ou pensam que teremos que aceitar vocês por causa da aterradora simplicidade e majestade de Luiz Gonzaga, o rei do baião? Ou das lindas canções de Nando Cordel e dos seus conterrâneos pernambucanos Alceu Valença, Dominguinhos, Geraldo Azevedo e Lenine? Isso sem falar nos paraibanos Zé e Elba Ramalho e do cearense Fagner…
E Não poderia deixar de lembrar também da genial família Caymmi e suas melofias doces e baianas a embalar dias e noites repletas de poesia…
Ah! Nordestinos…
Além de tudo isso, vocês ainda resistiram à escravatura? E foi daí que nasceu o mais famoso quilombo, símbolo da resistência dos negros á força opressora do branco que sabe o que é melhor para o nosso país? Por que vocês foram nos dar Zumbi dos Palmares? Só para marcar mais um ponto na sofrida e linda história do seu povo?
Um conselho, pobres nordestinos. Vocês deveriam aprender conosco, povo civilizado do sul e sudeste do Brasil. Nós, sim, temos coisas boas a lhes ensinar.
Por que não aprendem conosco os batidões do funk carioca? Deveriam aprender e ver as suas meninas dançarem até o chão, sendo carinhosamente chamadas de “cachorras”. Além disso, deveriam aprender também muito da poesia estética e musical de Tati Quebra-Barraco, Latino e Kelly Key. Sim, porque melhor que a asa branca bater asas e voar, é ter festa no apê e rolar bundalelê!
Por que não aprendem do pagode gostoso de Netinho de Paula? E ainda poderiam levar suas meninas para “um dia de princesa” (se não apanharem no caminho)! Ou então o rock melódico e poético de Supla! Vocês adorariam!!!
Mas se não quiserem, podemos pedir ao pessoal aqui do lado, do Mato Grosso do Sul, que lhes exporte o sertanejo universitário… coisa da melhor qualidade!
Ah! E sem falar numa coisa que vocês tem que aprender conosco, povo civilizado, branco e intelectualizado: explorar bem o trabalho infantil! Vocês não sabem, mas na verdade não está em jogo se é ou não trabalho infantil (isso pouco vale pra justiça), o que importa mesmo é o QUANTO esse trabalho infantil vai render. Ou vocês não perceberam ainda que suas crianças não podem trabalhar nas plantações, nas roças, etc. porque isso as afasta da escola e é um trabalho horroroso e sujo, mas na verdade, é porque ganha pouco. Bom mesmo é a menina deixar de estudar pra ser modelo e sustentar os pais, ou ser atriz mirim ou cantora e ter a sua vida totalmente modificada, mesmo que não tenha estrutura psicológica pra isso… mas o que importa mesmo é que vão encher o bolso e nunca precisarão de Bolsa-família, daí, é fácil criticar quem precisa!
Minha mensagem então é essa: – Calem a boca, nordestinos!
Calem a boca, porque vocês não precisam se rebaixar e tentar responder a tantos absurdos de gente que não entende o que é, mesmo sendo abandonado por tantos anos pelo próprio país, vocês tirarem tanta beleza e poesia das mãos calejadas e das peles ressecadas de sol a sol.
Calem a boca, e deixem quem não tem nada pra dizer jogar suas palavras ao vento. Não deixem que isso os tire de sua posição majestosa na construção desse povo maravilhoso, de tantas cores, sotaques, religiões e gentes.
Calem a boca, porque a história desse país responderá por si mesma a importância e a contribuição que vocês nos legaram, seja na literatura, na música, nas artes cênicas ou em quaisquer situações em que a força do seu povo falou mais alto e fez valer a máxima do escritor: “O sertanejo é, antes de tudo, um forte!”
Que o Deus de todos os povos, raças, tribos e nações, os abençoe, queridos irmãos nordestinos!"
(José Barbosa Junior )
Já escrevi sobre os preconceitos religiosos em outros textos e a cada dia me envergonho mais do povo que se diz evangélico (do qual faço parte) e dos pilantras profissionais de púlpito, como Silas Malafaia, Renê Terra Nova e outros, que se venderam de forma absurda aos seus candidatos. E que fique bem claro: NÃO os cito por terem apoiado o Serra… outros pastores se venderam vergonhosamente para apoiarem a candidata petista. A luta pelo poder ainda é a maior no meio do baixo-evangelicismo brasileiro.
Mas o que me motivou a escrever este texto foi a celeuma causada na internet, que extrapolou a rede mundial de computadores, pelas declarações da paulista, estudante de Direito, Mayara Petruso, alavancada por uma declaração no twitter: “Nordestino não é gente. Faça um favor a SP, mate um nordestino afogado!”.
Infelizmente, Mayara não foi a única. Vários outros “brasileiros” também passaram a agredir os nordestinos, revoltados com o resultado final das eleições, que elegeu a primeira mulher presidentE ou presidentA (sim, fui corrigido por muitos e convencido pelos “amigos” Houaiss e Aurélio) do nosso país.
E fiquei a pensar nas verdades ditas por estes jovens, tão emocionados em suas declarações contra os nordestinos. Eles têm razão!
Os nordestinos devem ficar quietos! Cale a boca, povo do Nordeste!
Que coisas boas vocês têm pra oferecer ao resto do país?
Ou vocês pensam que são os bons só porque deram à literatura brasileira nomes como o do alagoano Graciliano Ramos, dos paraibanos José Lins do Rego e Ariano Suassuna, dos pernambucanos João Cabral de Melo Neto e Manuel Bandeira, ou então dos cearenses José de Alencar e a maravilhosa Rachel de Queiroz?
Só porque o Maranhão nos deu Gonçalves Dias, Aluisio Azevedo, Arthur Azevedo, Ferreira Gullar, José Louzeiro e Josué Montello, e o Ceará nos presenteou com José de Alencar e Patativa do Assaré e a Bahia em seus encantos nos deu como herança Jorge Amado, vocês pensam que podem tudo?
Isso sem falar no humor brasileiro, de quem sugamos de vocês os talentos do genial Chico Anysio, do eterno trapalhão Renato Aragão, de Tom Cavalcante e até mesmo do palhaço Tiririca, que foi eleito o deputado federal mais votado pelos… pasmem… PAULISTAS!!!
E já que está na moda o cinema brasileiro, ainda poderia falar de atores como os cearenses José Wilker, Luiza Tomé, Milton Moraes e Emiliano Queiróz, o inesquecível Dirceu Borboleta, ou ainda do paraibano José Dumont ou de Marco Nanini, pernambucano.
Ah! E ainda os baianos Lázaro Ramos e Wagner Moura, que será eternizado pelo “carioca” Capitão Nascimento, de Tropa de Elite, 1 e 2.
Música? Não, vocês nordestinos não poderiam ter coisa boa a nos oferecer, povo analfabeto e sem cultura…
Ou pensam que teremos que aceitar vocês por causa da aterradora simplicidade e majestade de Luiz Gonzaga, o rei do baião? Ou das lindas canções de Nando Cordel e dos seus conterrâneos pernambucanos Alceu Valença, Dominguinhos, Geraldo Azevedo e Lenine? Isso sem falar nos paraibanos Zé e Elba Ramalho e do cearense Fagner…
E Não poderia deixar de lembrar também da genial família Caymmi e suas melofias doces e baianas a embalar dias e noites repletas de poesia…
Ah! Nordestinos…
Além de tudo isso, vocês ainda resistiram à escravatura? E foi daí que nasceu o mais famoso quilombo, símbolo da resistência dos negros á força opressora do branco que sabe o que é melhor para o nosso país? Por que vocês foram nos dar Zumbi dos Palmares? Só para marcar mais um ponto na sofrida e linda história do seu povo?
Um conselho, pobres nordestinos. Vocês deveriam aprender conosco, povo civilizado do sul e sudeste do Brasil. Nós, sim, temos coisas boas a lhes ensinar.
Por que não aprendem conosco os batidões do funk carioca? Deveriam aprender e ver as suas meninas dançarem até o chão, sendo carinhosamente chamadas de “cachorras”. Além disso, deveriam aprender também muito da poesia estética e musical de Tati Quebra-Barraco, Latino e Kelly Key. Sim, porque melhor que a asa branca bater asas e voar, é ter festa no apê e rolar bundalelê!
Por que não aprendem do pagode gostoso de Netinho de Paula? E ainda poderiam levar suas meninas para “um dia de princesa” (se não apanharem no caminho)! Ou então o rock melódico e poético de Supla! Vocês adorariam!!!
Mas se não quiserem, podemos pedir ao pessoal aqui do lado, do Mato Grosso do Sul, que lhes exporte o sertanejo universitário… coisa da melhor qualidade!
Ah! E sem falar numa coisa que vocês tem que aprender conosco, povo civilizado, branco e intelectualizado: explorar bem o trabalho infantil! Vocês não sabem, mas na verdade não está em jogo se é ou não trabalho infantil (isso pouco vale pra justiça), o que importa mesmo é o QUANTO esse trabalho infantil vai render. Ou vocês não perceberam ainda que suas crianças não podem trabalhar nas plantações, nas roças, etc. porque isso as afasta da escola e é um trabalho horroroso e sujo, mas na verdade, é porque ganha pouco. Bom mesmo é a menina deixar de estudar pra ser modelo e sustentar os pais, ou ser atriz mirim ou cantora e ter a sua vida totalmente modificada, mesmo que não tenha estrutura psicológica pra isso… mas o que importa mesmo é que vão encher o bolso e nunca precisarão de Bolsa-família, daí, é fácil criticar quem precisa!
Minha mensagem então é essa: – Calem a boca, nordestinos!
Calem a boca, porque vocês não precisam se rebaixar e tentar responder a tantos absurdos de gente que não entende o que é, mesmo sendo abandonado por tantos anos pelo próprio país, vocês tirarem tanta beleza e poesia das mãos calejadas e das peles ressecadas de sol a sol.
Calem a boca, e deixem quem não tem nada pra dizer jogar suas palavras ao vento. Não deixem que isso os tire de sua posição majestosa na construção desse povo maravilhoso, de tantas cores, sotaques, religiões e gentes.
Calem a boca, porque a história desse país responderá por si mesma a importância e a contribuição que vocês nos legaram, seja na literatura, na música, nas artes cênicas ou em quaisquer situações em que a força do seu povo falou mais alto e fez valer a máxima do escritor: “O sertanejo é, antes de tudo, um forte!”
Que o Deus de todos os povos, raças, tribos e nações, os abençoe, queridos irmãos nordestinos!"
(José Barbosa Junior )
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